da mata ao urbano... adaptando-se

Ao longo dos anos algumas coisas foram difíceis de digerir. O primeiro entrave, devido a carga cristã na infância, foi lidar com o conceito de bem e mal, pois como todos sabem, qualquer coisa além do cristianismo é por si só algo maléfico. Eu poderia me considerar um iniciante tolo e medroso e não por menos, já que o destino do inferno permeia qualquer um que seja um pouco mais aberto a novas correntes e conceitos. Um ritual com fogueira foi o estopim para alçar voou. Nesta época fiz algumas coisas simples como rituais relacionados aos elementos mais básicos e isso abriu minha mente ainda mais. Tendo superado isso investi em estudar cada vez mais e por força das circunstâncias o hermetismo surge e todas as coisas correlatas começaram a fazer algum sentido.


Passado os anos nestes estudos veio até mim o caoísmo (chaoísmo) junto ao xamanismo. As duas se correspondem em vários pontos. Ou, para colocar de uma forma melhor, o caoísmo dialoga muito bem com o hermetismo e xamanismo. Entretanto gerou-se um nó na mente que demorou algum tempo para se desfazer. Tal experiência fora muito gratificante e me colocou em outro ponto do caminho. Noções de servidores e sigilos começaram a fazer parte de minhas práticas dentre outras coisas. Tratei de compreender ao máximo a questão de paradigmas e etc. Alguns anos ainda se acumulariam para que isso de fato fosse algo simples.

A leitura abre muitas portas e dentre elas o livro de Serge King - Xamã Urbano me abriu a mente para muitos conceitos soltos que obtive ao longo da jornada. Não me deparei com nada que já não tivesse lido antes, mas o conjunto em si é de fato interessante.

Um conceito muito difundido nestes meios é o das divisões do corpo, normalmente em três partes, mas já encontrei divisões de sete e mais. Estas divisões nada mais são do que formas para facilitar a compreensão da mecânica que há em tudo. Diante desta leitura, Serge King me fez perceber algo do qual já havia cogitado, mas sem suporte teórico ficava só no achismo. Ele trás a divisão mais básica em três partes: KU (o coração, o corpo ou subconsciente), LONO (a mente ou mente consciente) e KANE (o espírito ou a superconsciência).

Logo de início ele implica que o corpo, "KU", tem memória: "A função principal desse aspecto da consciência é a memória...". Além da questão de que o corpo não diferencia uma experiência agora de uma memória de algo anterior ou de um desejo futuro. Para ele tudo ocorre no agora e tudo é real. Se você insistir em lembra-se de algo com toda emoção possível poderá experimentar várias sensações físicas idênticas ou muito próximas das que ocorreram no momento que o caso ocorreu. Isso é um pensamento importante no processo da prática da magick. Isso abre muitos meios de lidar com vícios e o desenvolvimento de habilidades corriqueiras dentre outras coisas. O corpo portanto vive sem se preocupar com o tempo apesar de sofrer ação deste. "KU só se preocupa com a intensidade da experiência, isto é, só com o nível de reação fisiológica, emocional, química e muscular que ocorreu durante a experiência.". "A função principal de KU é a memória(lembrança) e a motivação principal é o prazer.".

Em seguida ele trata da mente muito próximo de como a psicologia implica com o superego. LONO é portanto o que coordena KU e trata de guiar o mesmo para resultados mais eficazes. "LONO é sua parte consciente de informação interna e externa de memórias, pensamentos, ideias, imaginação, intuição, palpites e inspirações, bem como impressões sensoriais de visão, som toque, cheiro, profundidade, movimento, pressão tempo e outros (...) a função principal de LONO é a de tomar decisões (...) Uma das decisões que LONO frequentemente tem de tomar é onde focalizar a atenção. (...) Fazer algo significa não fazer muitas outras coisas.".

KANE, por fim, apresenta-se como a alma e ele implica que a mesma não é algo separável do resto. "KANE então é concebido como uma característica "fonte", uma essência puramente espiritual (...) sua motivação principal é a harmonia.". KANE vem como a intuição insistindo para que nós alcancemos os objetivos mais profundos que possuímos. Ele surge quando estamos por quebrar o caminho, escolher a via que atrapalhará de alcançarmos o objetivo maior de nossas vidas.

Esses três pontos são importantes em vários aspectos práticos. O interesse ao citar eles aqui nada mais é do que implicar que nenhuma destas escolhas feitas durante a vida tem real sentido enquanto não compreendermos todas as possibilidades da nossa atuação na realidade. O conhecido aforisma conhece-te a ti mesmo começa de fato a ter algum sentido real quando implicamos em nos ver como um conjunto de coisas unificadas ou em busca desta unidade. Cada qual atuando em um ponto das nossas vidas. Este conhecer não implica somente em histórias próprias ou sentimentos específicos. Este conhecer deve abarcar tudo.

Assim me pego reavaliando várias práticas minhas e as razões delas terem dado certo em alguns momentos e em outros não. Esse envolvimento deve ser inteiro. Um ritual em pedaços recompensa com pedaços de resultados soltos e sem sentido. Engana-se quem acha que basta suavizar a voz para ser manso, se o coração estiver borbulhando de rancor o que se escutará será apenas um gemido falso. E não basta ter um palco belo e produzido se os atores não tiverem absorvido o texto e o sentimento da personagem. Contudo eis que surge a questão que me motivou a escrever. E como lidar com o fato de que os passos dessas danças não se encaixam com a realidade habitual que temos. Quero dizer, como de fato realizar uma ação destas, cheias de detalhes caros de ouro e brilhantes ferramentas num mundo cheio de pessoas medrosas e computadores barulhentos. E me vem o nome de Papus e um de seus ensinamentos mais caros: a adaptação.

Entretanto vou deixar para continuar esse pensamento num próximo texto. Abrir espaço agora para discutirmos sobre estes pontos trará insights interessantes.

As citações em itálico são do livro Xamã Urbano de Serge King.

Leia também o Liber Null de Peter Carroll. (versão em inglês).
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